Sítio do Picapau Amarelo, As Aventuras dos Trapalhões, Xuxa, Guguzinho, Sérgio Mallandro, A Turma do Arrepio, Disney. Dificilmente algu...

11:19:00 by marcelo engster

Sítio do Picapau Amarelo, As Aventuras dos Trapalhões, Xuxa, Guguzinho, Sérgio Mallandro, A Turma do Arrepio, Disney. Dificilmente alguém que tenha crescido nos últimos anos lendo quadrinhos não conheça o trabalho do Gustavo Machado. Desenhista e roteirista, Gustavo iniciou cedo nos quadrinhos, aos 18 anos, trabalhando para a RGE na revista do Sítio do Picapau Amarelo. A partir daí foram diversas as editoras e equipes nas quais participou, uma experiência inspiradora. Conversamos com o artista sobre seus processos criativos, confere:

Como você começou a trabalhar com quadrinhos?
Aos 18 anos de idade, em janeiro de 1977. Um mês antes, respondi um anúncio que saiu no Jornal O Globo: “Desenhista de Histórias em Quadrinhos – Precisa-se com experiência”. Não tinha experiência profissional alguma, apenas desenhando em casa desde pequeno. Acabei sendo admitido assim mesmo, passando a integrar a equipe que desenhava o gibi do Sítio do Picapau Amarelo, na RGE (Rio Gráfica e Editora, hoje Editora Globo).


Quando faço um trabalho em parceria, pergunto para o roteirista quais foram as inspirações dele.
Como é seu processo criativo? Você tem uma rotina de criação? Tem metas? Como fazer pra chegar da ideia ao papel?
Sempre que começo um novo trabalho busco me informar sobre o tema abordado, lendo livros e pesquisando na internet. Geralmente na parte da manhã me ocupo com as pesquisas, contatos de trabalho e fazer uma revisão do que desenhei nos dias anteriores. Posso fazer anotações e alterações nos leiautes. A meta principal sempre será o cronograma, o prazo de entrega. Quando faço um trabalho em parceria, pergunto para o roteirista quais foram as inspirações dele. Isso ajuda a entender como ele desenvolveu sua ideia, e evitar repetir algo já feito. Começo fazendo muitos estudos e esboços, sempre em folhas A3. Quanto mais estudos, melhor vão se tornando as criações.

Estudos para a HQ "As Aventuras de Zózimo Barbosa, o Corno que Sabia Demais"
Quais suas principais referências? O que te inspira?
Na maioria das vezes o trabalho é encomendado, e então já trás especificações e sugestões de caminhos a serem seguidos. Claro que sempre posso acrescentar e até mudar, baseado nos conhecimentos que fui absorvendo nos 40 anos como profissional de quadrinhos. Minhas maiores inspirações são os clássicos dos quadrinhos e do cinema. É fundamental saber qual serão o público alvo e sua faixa etária. O mesmo assunto pode ser abordado de muitas maneiras, dependendo para quem se dirige o trabalho.

As Aventuras dos Trapalhões - Didi Volta Para o Futuro, 1991
Costumo dizer que, do tempo total dedicado a uma HQ, metade dele eu uso apenas pesquisando.

Você faz alguma pesquisa para suas histórias?
Embora já tenha escrito bastante roteiros de quadrinhos, sempre me considerei essencialmente um desenhista. Depois de ler o roteiro de HQ, passo a fazer uma intensa pesquisa em livros e na internet sobre os temas abordados, assim com os lugares, as épocas e suas histórias. A construção dos personagens é um capítulo a parte. Costumo dizer que, do tempo total dedicado a uma HQ, metade dele eu uso apenas pesquisando.

Model Sheet de Trapacop, 1991
O que faz quando tem o famoso branco?
Saio da prancheta, vou fazer um lanche, tomar um suco, ver um pouco de TV ou tudo isso junto. Brinco um pouco com minhas gatas de estimação, dou uma conferida nas redes sociais, folheio alguma revista ou livro... Se voltar depois pra prancheta e o branco persistir, saio pra dar uma volta no shopping ou pegar um cinema. As ideias começam a pipocar no meio do passeio e fico querendo voltar logo pra casa.

Qual a importância do quadro em uma história em quadrinhos?

O quadro é tudo nos quadrinhos! A sequencia deles é o que cria uma história em quadrinhos, não? Sem eles não seria uma HQ, mas apenas um roteiro. Nunca penso em um quadro isoladamente quando faço quadrinhos, e sim na página inteira. Independente de quantos quadros ela tenha, todos os quadros tem que fluir criando uma grande composição de página. Deve haver harmonia de quadro para quadro, para os olhos dos leitores navegarem pela página com o ritmo que desejamos.

Tarzan, 1999

É fundamental saber e planejar as páginas pares e ímpares, que ficam lado a lado, para controlar o ritmo e harmonia visual da HQ a cada página virada da revista ou álbum de quadrinhos.

Quais são os cuidados na hora de diagramar uma página? Existe diferença entre o que vai numa página, ímpar e uma par?
Tenho o hábito de criar pré-leiautes das páginas num tamanho reduzido. Posso usar uma folha A4 para criar esboços de quatro páginas, já considerando se serão pares ou ímpares na disposição do leiaute. Nessas pré-páginas, os thumbnails, não tenho a preocupação de definir no desenho só detalhes dos cenários e personagens. Faço apenas os volumes, para gerar o equilíbrio entre os elementos e definir os espaços para balões e recordatórios. Sigo quase que fielmente esse thumbnails, quando passo para o tamanho definitivo em folhas A3.
É fundamental saber e planejar as páginas pares e ímpares, que ficam lado a lado, para controlar o ritmo e harmonia visual da HQ a cada página virada da revista ou álbum de quadrinhos.

Mulan, 1998
Como chegar até o público? Como estabelecer uma relação com o leitor?
Gosto sempre de pensar em um novo projeto que esteja em sintonia com temas interessantes para o grande público. Vivemos em um país que perdeu a tradição de consumir quadrinhos em grande escala. Desconsiderando os comics e mangás, que tem público cativo, perdemos o hábito de ler quadrinhos como acontecia até os anos de 1990. Gibis eram mais baratos e acessíveis, todo mundo comprava e trocava, buscando sempre as novidades nas bancas de revistas. Hoje virou artigo de luxo, item de colecionador.
Não me importa que as pessoas leiam quadrinhos e larguem as revistas de lado. Era como ir ao cinema, mas não precisar comprar o filme depois pra assistir novamente. Gostaria apenas que mais pessoas voltassem a adquirir o hábito de comprar um gibi nas bancas, apenas para relaxar e ler, no ônibus, em casa, no recreio, num passeio, e depois passar para quem curtir também.
Há muitos anos, Claudio Seto, meu saudoso editor, contou que no Japão as pessoas compram edições enormes de mangás, parecendo listas telefônicas. Os volumosos mangás são feitos em papel de baixa qualidade, em preto e branco, e em função disso, baratos. Disse que as lixeiras das estações de metrô são entulhadas dessas mega edições, pois as pessoas leem e jogam fora. Vale lembrar que os quadrinhos começaram nos jornais nas tiras. Sempre foi algo descartável. Os álbuns de luxo deveriam ser apenas mais uma opção, para os poucos leitores com maior poder aquisitivo e que querem colecionar.

Didi Senna, página de HQ inédita do gibi Aventuras dos Trapalhões
Como é a relação entre o roteirista e o desenhista?
No meu caso, sempre foi muito harmoniosa. Foram raríssimos os casos onde tive que desenhar um roteiro que não curtia. Geralmente os editores dão liberdade para os desenhistas escolherem os roteiristas como parceiros, pois isso é essencial para que o trabalho se desenvolva bem. Quando o projeto é autoral, aí então a sintonia ter que ser total.


   
Você consegue viver de quadrinhos?
Nos últimos tempos está mais difícil, embora tenha muita sorte de praticamente emendar uma HQ com outra. Quando acontecem as entressafras, os desenhistas tem sempre a possibilidade de trabalhar ilustrando para livros, revistas ou publicidade.

Qual o papel de um editor de quadrinhos em uma obra?
O editor é fundamental na produção de quadrinhos. Ele é como o produtor de um filme, organizando o material e solucionando os eventuais problemas, assim como desenvolvendo a edição onde a HQ será publicada.
Infelizmente, o papel do editor tem se reduzido muito, com a crescente produção autoral. Nesses casos, muitas vezes o quadrinista assume a função de editor, sem que tenha o talento necessário para isso. Quando era jovem, os editores eram os aglutinadores de quadrinistas, convidando os roteiristas e desenhistas para as revistas que eles criavam e editavam. Havia ali um filtro fundamental, onde a avaliação constante do editor fazia com que as revistas tivessem sua marca própria.

Trapalhada Nas Estrelas, 1988
Existem diferenças de mercado de trabalho para roteiristas e desenhistas?
Hoje aqui no Brasil a situação está muito estranha... Ouve-se dizer que o mercado de quadrinhos está numa excelente fase, com muitos autores e lançamentos, mas não vejo a coisa por aí... São trabalhos, em sua grande maioria, de quadrinistas iniciantes, embora alguns com muito talento. As edições autorais, muitas são bancadas dos próprios bolsos, os em campanhas de arrecadação. É quase como se fossem fanzines de luxo, com uma tiragem baixa e sem a divulgação necessária. Qualquer um hoje lança o seu gibi ou álbum, mas isso não quer dizer que se possa viver disso.

Sérgio Mallandro, 1988

Como é trabalhar para grandes editoras, em revistas com equipes? Existem métodos de produção?
Por experiência própria, considero que é a melhor maneira de fazer e viver de quadrinhos. Além da figura do editor, que dirige, seleciona e avalia constantemente a qualidade do material a ser publicado, existe o riquíssimo aprendizado nas parcerias com uma grande variedade de artistas. São roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, coloristas, letristas, todos querendo aprender e repassar suas experiências. Como cada um tem seus próprios métodos, a troca de informação gera um ambiente produtivo e sempre renovado.

Gugu, 1988

Quais as dificuldades do mercado brasileiro?
Acho que o problema principal são as editoras que se esqueceram de investir em quadrinhos. Parece que está se lançando muita coisa, mas se comparado com EUA, Europa e Japão, os números são frustrantes, tanto em número de edições quanto em tiragem de vendas.

é como correr nanquim pelas veias.

O que te motiva a continuar fazendo quadrinhos?
Ouvi dizer que foi feita uma enquete nos EUA, onde trabalhar fazendo quadrinhos foi considerado uma das piores profissões. Deve ser isso mesmo... O artista que se apaixona pela linguagem dos quadrinhos geralmente quer abrir mão de todo o resto. Podemos até fazer ilustrações e afins, mas se oferecerem a metade da grana para fazer uma HQ, a gente larga tudo e pega o projeto. Fazer quadrinhos é contar uma história com desenhos, é criar personagens, cenários... Tornamos-nos os criadores de vastos e complexos universos, sempre com histórias novas para serem contadas e desenhadas. Como dizem, é como correr nanquim pelas veias.


O que aconselharia para quem está começando ou quer trabalhar com quadrinhos?
O aspirante a quadrinista tem que praticar muito, escrevendo e desenhando HQs que ninguém vai ler, até ter a primeira chance de publicação. Eu guardo até hoje centenas de páginas de quadrinhos feitas por mim, desde os meus nove anos de idade. Continuo sendo o único e fiel leitor daquele material amador, e a cada nova leitura naquelas velhas e inocentes páginas, sinto toda a paixão que dedicava a cada traço, e como tudo aquilo foi importante no meu desenvolvimento, ainda que solitário.
Além disso, é preciso conhecer todos os estilos e linguagens de quadrinhos, não ficando preso a gêneros, como Marvel/DC, Mangás, infantis... Nunca se sabe de onde surgirá um convite para fazer quadrinhos, e no início não podemos nem devemos impor nossas preferências, mas aceitar os desafios que estiverem nos propondo.
Por fim, tão fundamental quanto à prática e o ecletismo nas pesquisas, é a seriedade nos prazos e cronogramas impostos. Fazer quadrinhos dentro das condições possíveis, mas fazendo a nossa parte com responsabilidade. Existem outros que dependem da nossa parte concluída para dar continuidade. Por mais autoral que a HQ seja, existe sempre mais pessoas envolvidas na publicação do trabalho.
Ah... Não sejam tímidos! Esse é um luxo que o quadrinista tupiniquim não pode usufruir. Aqui a gente tem que criar e vender o nosso trabalho, muito diferente dos quadrinistas de primeiro mundo, com agenciadores e contatos.

4 comentários:

  1. Muito bom. Mestre do quadrinho nacional.

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    1. Grato pela estima, EstúdioHQ&CIA!

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  3. Henrique14:55

    Muito bom...pra um aspira como eu deu muito o que pensar

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