A filosofia, para muitos, pode parecer algo completamente distante e pouco atraente, algo relegado aos bancos acadêmico...

18:13:00 by Carlos Guilherme Vogel




A filosofia, para muitos, pode parecer algo completamente distante e pouco atraente, algo relegado aos bancos acadêmicos e a livros por vezes incompreensíveis (pra não dizer chatos). Mas e quando a filosofia se junta à ficção e nos ajuda a pensar sobre questões muito próximas? E quando ela, além de se unir à ficção, invade a tela da nossa televisão ou computador, através dos personagens de nossa série favorita, sem que a gente nem perceba? 

Tome cuidado! A filosofia está por todos os lados... 

Dos bestiários a Vilém Flusser

Abordar questões filosóficas através da ficção não é uma novidade. Na Idade Média, por exemplo, os bestiários eram um tipo de literatura bastante comum entre os letrados. Ao abordar o universo das bestas, seres desconhecidos e assustadores, esse tipo de literatura apresentava uma mistura de moral religiosa com observação da realidade, a partir da qual abordavam as relações do homem com o mundo.




De acordo com o linguista e pesquisador brasileiro Alcebíades Miguel, não eram o animal e a natureza concretos que estavam no centro de interesses dos criadores dos bestiários, mas sim um animal e uma natureza transcendentes, capazes de potencializar a imaginação e a significação, através de associações possíveis. Meio doido, né?
Mais recentemente, já no ano de 1957, Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero publicam o  “Manual de Zoología Fantástica”, um livro no qual reúnem mais de cem criaturas fantásticas originárias de lendas, mitos, religiões e da própria literatura. A publicação também é conhecida como “Livro dos Seres Imaginários” e demonstra como estas entidades, estas criaturas mágicas, se relacionam com assuntos ligados a nós, humanos.   



Este tipo de literatura que envolve uma fabulação filosófica pode ser encontrado em obras de vários autores contemporâneos, como nas “Ficciones” do próprio Borges, no “Axolotl” de Cortázar ou no excelente conto de Guimarães Rosa, “Meu tio, o Iauaretê”, que através da história de um matador de onças que enquanto narra a sua história sofre uma gradativa metamorfose, aborda as fronteiras entre o animal e o humano. 




É a partir da obra de um filósofo, porém, que este tema vem ganhando espaço em discussões que se propõe a superar o antropocentrismo e deslocar o olhar para o outro, o “não humano”. Vilém Flusser nasceu em Praga, passou boa parte de sua vida no Brasil, e posteriormente retornou a Europa. É muito provável que sua condição de imigrante o tenha colocado nesse lugar de “estrangeiro” e o tenha habilitado a dissertar com conhecimento de causa sobre o tema da alteridade (papo de filósofo, alteridade está ligada a questão do "outro", aquele que não somos, mas com o qual devemos ter empatia, para melhor compreendê-lo).

Vilém Flusser


“Vampyroteuthis Infernalis”, uma das obras de Flusser, destaca-se entre outras pela forma como procura distanciar-se da condição humana. O livro, publicado originalmente em alemão no ano de 1987, foi lançado no Brasil em 2011, na versão que o autor escreveu em português, que difere em alguns pontos da versão alemã (ele escrevia ao mesmo tempo, nas duas línguas, mas as versões eram um pouco diferentes entre si).  



Este trabalho foi realizado em parceria com o biólogo e artista francês Louis Bec, que assina as ilustrações constantes no livro. É por meio da fábula e do experimento mental que Flusser procura entrelaçar razão e imaginação, lançando sobre as questões humanas um olhar diferenciado e, por que não dizer, renovador.
O personagem do livro é um molusco octópode, de nome científico Vampyroteuthis Infernalis, que pode ultrapassar os 20 metros de diâmetro. O animal vive nas profundezas dos abismos oceânicos e raramente emerge à superfície. Seu habitat é completamente distinto do humano, vivendo em um ambiente líquido e sem luz. Apesar das diferenças, Flusser apresenta logo no início do livro os pontos de convergência entre essas duas espécies, que possibilitam a reflexão proposta pela obra: pensar o homem a partir do ponto de vista de um octópode.



Parece complexo, mas deslocar nosso olhar pode nos ajudar a compreender melhor diversas questões da nossa própria espécie.

Sense8 e a ficção filosófica no audiovisual


O cinema já se utilizou muito desse tipo de abordagem. Filmes como “Planeta dos Macacos”, “Alien” e “ET, o Extraterrestre”, confrontam o ser humano com outros seres que são, de certa forma, espelhos de si mesmo. As séries de televisão contemporâneas, conhecidas pela complexidade com que constroem suas narrativas, também podem fazer uso dessas fabulações epistemológicas.

Estas séries são produtos muito bem estruturados, com várias camadas. Uma mais superficial, com o objetivo de conquistar e entreter o espectador. Mas a medida que vamos nos aprofundamento na compreensão, observamos um novo formato audiovisual que afasta o estigma de que a televisão serve apenas para alienar e não pensar. Vejamos o caso de Sense8.



Lançada em 05 de junho de 2015 pela plataforma de streaming Netflix, criada pelas Irmãs Wachowski e por J. Michael Straczynski, a série conta a história de oito pessoas nascidas no mesmo dia, e que possuem uma conexão sensorial entre si. Vivendo em lugares distintos do planeta, ambos despertam ao mesmo tempo para uma consciência coletiva.  
Assim como o polvo vampiro de Vilém Flusser, Sense8 também apresenta um ser fictício, que se opõe ao homem e ao mesmo tempo leva a uma reflexão sobre a condição humana. Este ser fictício é chamado de Homo Sensorium e seria um ramo da evolução humana que se distingue do Homo Sapiens pela possibilidade de experimentar uma conexão a qual este último é incapaz de sentir.    

Os oito personagens principais da série (Capheus, Kala, Lito, Nomi, Riley, Sun, Will e Wolfgang), mesmo vivendo em países distantes e sem se conhecerem pessoalmente, vivenciam encontros proporcionados por essa interconexão, que lhes permite desde diálogos a relações sexuais em grupo, sem que estejam próximos fisicamente.

A utilização do corpo como elemento de conexão é explorada imageticamente ao longo dos episódios, seja em cenas de ação ou em momentos de erotismo. Essa exploração chega a seu ápice em uma sequência de orgia sensorial que se dá no sexto episódio da primeira temporada.



Questões que movem o espectador à reflexão não são incomuns na série, ao contrário, integram-se à narrativa, flertando com a filosofia. Seria audacioso considerar a série uma ficção filosófica ou uma fabulação epistemológica? Provavelmente sim, mas não há como negar que apesar de se tratar de um produto audiovisual que visa o entretenimento, a série abre espaço para questionamentos e reflexões constantes, principalmente no que se refere à empatia e alteridade.

Para quem se interessar um pouco mais sobre assunto, segue o link para um artigo onde me aprofundo um pouco mais no tema e cito alguns autores que pesquisam temas relacionados.






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